domingo, 8 de novembro de 2009

A Caixa D’Água e Eu... Iziquiel Aparecido de Carvalho

O meu primeiro contato com a Caixa D’Água se deu no ano 1.981, e foi a partir dali que conheci o restante da cidade. Com o estranhamento natural do novato e inseguro em relação às minhas expectativas sobre o futuro, ainda assim, foi possível vislumbrar uma longa estadia nesta região. Logo de início, percebi que a vida ali tinha o charme da mistura, o lugar era multirracial, multicultural, tudo era “multimuito”. E com o espírito transgressor do jovem sonhador observei também que ali os bons sentimentos não eram somente peculiaridades psicológicas. Eram atitudes sólidas. Isso me fascinava e firmava a minha determinação em criar raízes. E assim foi... Amor à primeira vista.
Passado a primeira impressão vieram os convites para os cafezinhos caseiros que adicionados ao calor humano dessa gente simbolizava bem o resultado da miscigenação local. Uma bela mistura de cores, cheiros e sabores que construíam em mim motivos de satisfação. Era gente de todos os lugares: nordestinos, nortistas, sudestinos, sulistas... A convivência harmoniosa com essas pessoas me fez despir de qualquer preconceito. As experiências adquiridas com esses migrantes fizeram com que meu mundo de encantamentos fosse ampliado a cada dia. Tive muita sorte por desfrutar de toda essa diversidade que representa os vários ‘brasis’ existentes na Caixa D’Água.
Conforta-me muito saber que o modo que tenho de ver e pensar o mundo teve fortes influências neste local. Conhecer e conviver com pessoas como o “seu” Waldomiro da Farmácia (profissional com uma postura ética e uma habilidade para unir competência e humildade, que era impossível não admirá-lo); o “seu” Zé Padeiro (exímio conhecedor e observador político de Rondonópolis); “seu” Medeiros (homem que se fez empreendedor, quando o empreendedorismo ainda não era palavra de ordem.), e tantos outros, me fizeram melhor. Assim, vida pessoal, e a vida profissional ambas colheram mais bônus do que ônus, enquanto eu me fazia útil e funcional no mundo do comércio farmacêutico.
Hoje sei que minhas vivências na Caixa D’Água, enquanto balconista de drogaria possibilitou-me aprendizados que fazem parte da minha formação, e foi deste modo que entendi o valor das diferenças; descobri nas minhas imperfeições e na dos outros que somos seres inacabados, o que evidencia a grandeza de saber viver nas divergências; saber que os obstáculos que a vida oferece são estímulos para arquitetar o espetáculo da tolerância, e dessa forma, nessa construção humana consentir um pouco de Deus. Só assim, posso adquirir a habilidade de não permitir que meus interesses comerciais, ou minhas simpatias de balcão me furtem as possibilidades que eu tenho de servir.
Noto, na Caixa D’Água que às pressas de alguns são antagônicas com as demoras de outros, são os contrastes entre o moderno e o antigo, entre os agoras e as saudades, mas o bom é saber que toda essa dinâmica chamada vida adquire formas de esperanças, que se convertem em uma energia boa, que motiva as pessoas a darem continuidade na busca dos seus sonhos. Aliás, essa riqueza de significados se faz presente na fé, na gratidão e na generosidade da minha gente, e são estes os sentidos maiúsculos que temperam os motivos do acolhimento proporcionado por esse povo que aqui vive ou trabalha.
Pois bem! Assim é a Caixa D’Água: dos serviços, dos esportes, dos sabores, dos amores, das contradições, das pressas, das calmas... Do Manus, do Vilson e do Queijinho, do Zé e da Dona Maria, do Léo e da Luzia... Assim sou eu: recolhido no conforto da dúvida, vejo o tempo perder a pressa na certeza que hoje sou um pouco mais Caixa D’Água...

Ps: Hoje, a Caixa D’Água é uma região central da cidade de Rondonópolis - Mato Grosso.
FOTO: Iziquiel Carvalho/Celular Marcos Aurélio (Drogacerta)

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

PARA QUEM ‘VIVEU’...Julio Cézar Coelho

Todo sonho tolo sobre o solo; Tolos, toldos, tônus... Caíram todos.Talvez o toldo não tenha suportado; talvez o suporte não fosse apropriado; E, no entanto o sonho sonhado se tornou um tolo, um roto, um rosto desfigurado; A propriedade do alterado passa a ser calado, aceitando o castro recomendado. Não sou mais Eu, e não sei contar o remoto controle do início do fim de mim mesmo. Meus passos pisados, que outrora valsavam, passo a ter, sentindo o acre do calo. Não falo, pois o fardo do fado desencantou e, o mundo se abriu. Estou vivo; Grito. O grito se esvai sem nenhuma consoante ou vogal. Não à voz, nem vez. Talvez a vez venha a ser a vez da insensatez. Quanta estupidez a minha, pura aridez; E, no entanto estou vivo, com a certeza da incerteza me aplaudindo... Sorrindo. Não sou mais Eu; Nem Eus; Nem nada. Tanto nada que nada sente, nem semente; nem serpente. Vivente para a vida, construída, destruída, construída, destruída... Destruída. Constructo social, animal, verbal, nasal, sexual... Quantos cronos? Quanto nada acumulado. E o resultado de mim mesmo?! Não à piedade.
Foto:www.southalabama.edu/saric/tim/graphics/sitegraphics/drama.jpg

terça-feira, 7 de outubro de 2008

MINHAS SAUDADES e EU... Iziquiel Carvalho

Entre ritos e mitos...Entre atos e fatos...Entre falas e silêncios...Entre ditos e esquecidos...Entre lembranças e saudades... Fez-se a vida em sociedade, e eu me fiz humano e civilizado. O que eu não sabia é que nada é mais desumano do que a civilização. Hoje, sinto que minha subjetividade está algemada, e esta prisão tem nome: Modernidade.
Escapo, construindo contentamentos. ‘Viajo’ às minhas lembranças, e reencontro com saudades quase esquecidas que estavam recolhidas nos lapsos da memória. Em um mundo sem tempo para recordações, junto os ‘retalhos’de pensamentos adormecidos que ainda se fazem presentes, acordo-os e confecciono distrações.
Envolvido com esta satisfação por rememorar meu passado em imagens presentes, começo a sentir saudades de ser o que já não sou. Uma saudade diferente. Talvez, uma saudade que se sente somente quando criança. Agora sou adulto, e me tornei órfão de hojes que se negam a observarem os ontens. Não compreendo, porque os instantes recusam os distantes, projetando assim, a maioria dos nós que nos afasta de nós.
Encontro em minhas saudades as lembranças de uma infância que o tempo generoso preservou. É saudável voltar às origens, visitar memórias passadas, reencontrar comigo mesmo, ainda infantil. Reviver os ‘causos’ do meu avô; a música de viola de meus tios; as ‘receitas’ que meu pai, sentado em sua cadeira de palha, ‘tecia’ pra gente ser feliz; os sabores da comida caseira que minha mãe preparava no fogão de lenha... Enfim, coisas simples de uma vida rica de magia.
Hoje me adeqüei ao suportável e ao sofrível, e assim, consegui tolerar ao intolerável. Se ao menos, eu soubesse ontem o que sei hoje, não teria medo dos esconderijos do silêncio. Escaparia de todos os modelos: duais, dicotômicos, dialéticos... Porém, eu não esqueceria que o cinza é "filho" do preto e do branco.
Faço dos meus sentidos o reverso das lógicas. Concorro comigo mesmo. Consigo ver melhor com os olhos fechados. Meus óculos auxiliam a minha audição. Minhas dores anestesiam a minha alma. Não sou um conceito opcional, sou prioridade em todos os modelos que mantenham acesa a chama da dúvida.
Cavalgo na pele de águas desconhecidas sobre ondas alucinadas em busca do nada. Sinto os redemoinhos provocando gotas de um orvalho ainda por acontecer. Ouço o eco do oco que formata em meu labirinto um som incompreensível, mas perceptível a olho nu e audível em contato com o olfato. Sublime a junção dos sentidos que me devolve ruídos enriquecidos por murmúrios que se perdem dentro de burburinhos de vozes ainda sem vez para compreensão dos ‘normais’.
Mergulho fundo na superfície da vida e descubro que o tempo passou e as perdas foram inevitáveis, agora vivo minha lucidez, aguardando um reencontro com minha inocência. Inocência? Talvez, trocaram seu nome, e hoje a chamam de conhecimento. Por isto, gosto de ouvir Nietzsche, Tião Carreiro e Pardinho, Liu e Léu, Santo Agostinho, e Papai do Céu. Com eles, aprendo que sobra desconhecimento em mim.
Acolho as minhas necessidades, e me valho do desconhecido. Lá, ainda estou isento de opiniões.Lá, sem entender encontro meu existir dentro dos meus vazios. Lá, convivem bem o que eu sei e o que eu não sei. Lá, sou parte do que penso e também do que não penso, Lá, sou utopia, sou sonho, sou esperança, sou tudo e sou nada. Lá, sou puramente instinto...
Ah! Eu preciso de um sorriso de criança em todos os dialetos. Alguém pode conseguir?...

Foto:www.img254.imageshack.us/img254/6384/irzo1.jpg

quarta-feira, 25 de junho de 2008

EU E EU MESMO - ODEMAR LEOTTI

“Oh! Pedaço de mim. Oh! Metade afastada de mim” – Chico Buarque.

Como translada essas formas que emergem numa mistura de pensamento e ação, ou seja, pensamentação, pensamentalizage ou age pensando-sendo-e já é e já não é mais. Que já foi e é de novo, assim de eternidade em eternidade, como éter que se esvai nessa volatilidade sem sim: do bom ou do ruim, tudo vem e vai nesse misto de gozo e dor e gozo: goza e espanta e com os olhos estupefatos paga por isso, dependendo das grades contingenciais do ser: ser como sendo e se esvaindo como fumaça se vai e se busca como ar o ato de ser para que não caia no vazio do ser. Aqui ser é um estado ainda não realizado: sendo é o ato pensagimentação como jogo da criança: o que causa olhares sobressaltados, que deixa a vigília em eterno sobressalto: que se rala, se machuca e que salta e pensa no ar. No ar ar/quiteta e fica quites com a acontecimentalização. Pré-sentimento como pré-sente pré-senteando como quase um presente que ainda não o é: e quando é o é em gozo que já se esvai como um corisco e que já vem outro tempo e mais outro e outro. Saber como sabor: saboreante, saboreável, sapiens em seus nadifúndios cobertos de flores, em seus oceanos do nada a navegar em naves perfumadas cheias de sereias enquanto Ulisses bóia no mar do sonho da volta ao lar.
Maturidade que acaba com esse estado agencial. Ao matar as imanências, cria normas para alistar a ação no sono eterno do linear, do longínquo: normas mornas da normalização e das modorrentas vidas certas e vazias de sabor. A supressão do múltiplo, do perigo, e a instituição de sendo como ser previdente, dentro de um bloco monolítico que não é possível ver (ver sem ser visto?), mas aparecendo como espaço de uma pluralidade no tempo e espaço simultâneo onde a reinstituição do ser cria um sendo redistribuído e tornando invisível o grande irmão, e a sensação das relações de força se digladiando. Onde acontece, onde se tece a posse do prazer. Quais são os preços a se pagar pela ousadia do desejo? Preparam um lugar que nos honra, que nos faz sem nosso corpo de um eu não eu mesmo. Eis aí o que me intriga e deixa tudo em completa inércia da vida.
Foto: www.keepsake.blogger.com.br/RostoxC.jpg

sexta-feira, 9 de maio de 2008

SOU QUEM? - Iziquiel Carvalho

Sou quem me elaborou, projetou, analisou, descreveu, interpretou, construiu... Acontece que sobrevivi, e entre a minha construção e um vácuo deixado pelos executores da obra, escapei e me fiz também. Hoje sou a dúvida de quase todas as certezas. Nego muito do que do que fui e do que sou, pois sei que vontades alheias aos meus desejos determinando quem eu seria me trouxeram mais dissabores do que sabores. Sendo assim, renuncio a minha autenticidade.
Tento dizer o indizível, me faltam palvras para expressar meus sentimentos, nesta hora me valho do meu olhar, mas quantos o entenderão? Não tem importância, o poeta avisou: “Quem não compreende um olhar, tampouco compreenderá uma longa explicação”.
Vazios existentes promovem um encontro comigo mesmo, e de forma revigorada eu continuo a minha luta em prol das vozes sem som. Faço festa com o desconforto dos saberes, e como meu sol tem sabor de lua, encontro reconforto nos alucinados.
Neste “bolicho” de proscratinações, me transformo na esperança do moribundo, converto desespero em alegrias, e fantasio-as como a leveza de uma embriaguez.
Manter a chama das ilusões é agigantar-se no ínfimo; é saber que os defeitos são autênticos, e os perfeitos são excêntricos; é manter a jovialidade sem a preocupação de ser jovem; é entender que ser belo é produzir belezas, que ser novo é construir novidades; e que para ser feliz, quase sempre requer ser o sim do não e enchê-lo de nada.
Andando por asfaltos de areia movediça, blefando comigo mesmo, ouço os gritos dos calados, que sem liberdade continuam sonhando em ser livres. Despertar os sentidos adormecidos e fazê-los desistir dos limites é uma forma empolgante de extrair o sabor do nada e abastecê-lo com magia e mistério.
A eficácia da mediocridade torna as almas descrentes e extravagantes, acolhendo quase sempre desilusões. Não quero isto para mim, o que eu quero é ser a birra da criança transgressora, exteriorizando sentimentos sem medo de desagradar ou não.
Sou tantos e sou nada, abrigo em mim à incompreensão do presente, mas quem sabe não metamorfosearei o futuro? Só não tente me entender, porque eu já sou outro.
Foto:www.mywords.blogs.sapo.pt/arquivo/hands.jpg

domingo, 4 de maio de 2008

VERDADES? - Odemar Leotti

Que mecanismos produzem uma linguagem ao mesmo tempo soberana e discreta? Quando falamos de linguagem e discrição do que estaríamos falando? Não seria esses dois funcionamentos que produzem efeitos de poder por sua modalidade inventora, por positivações, de subjetividades? Eis o que me causa espanto. Para Foucault, as palavras tornam-se soberanas por “receberem a tarefa e o poder de ‘representar o pensamento’”. Mas representar sofre aqui um deslocamento do sentido de tradução para fabricação de “um duplo material que possa, na vertente externa do corpo, reproduzir o pensamento em sua exatidão”. Com linguagem clássica o valor absoluto das coisas passa no século XVII a somente ter sentido dentro de um sistema geral. As formas absolutas das existências singulares passam a somente ter existência como dados a serem conectadas a uma totalidade sufocante. Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber que: “o mundo não se abre com facas... Desaprender oito horas por dia ensina os princípios...” (Manoel de Barros-O livro das ignorãças).
As verdades se esgotam em si mesmas, em suas inexistências emergidas por sonambulismos. As coisas vão re-existindo-se, lambendo-se as feridas deixadas por sentido que se bastam em seus limites e aniquilam a experiência implantada perversamente que devoram a terra e faz do mundo um espaço da servidão a uma soberania discreta.
Foto:www.bugei.com.br/artigos/files/86_ilusao11imagem.jpg

quarta-feira, 16 de abril de 2008

SER ASSIM - Everton Val

VEM COM TUDO, ou apenas espere, pois não sabemos o porque de nossa história. Os fatos contradizem a todas as regras, mas que regras se elas não foram feitas para nós? Apenas sabemos como somos dependentes, digamos que viciados no inusitado, no se conhecer sem se ver. No se desejar sem se tocar. De se ouvir sem se falar. Sentir uma respiração ofegante mesmo na distância. Saber que está sendo desejada apenas pelo pensar...Pensar em ser possuída, tomada e amada, gritando em seu pensamento.
LEVA-ME PRO SEU MUNDO, mas que mundo se você não o conhece? Apenas ouviu falar. Desejar o inesperado, o proibido...Isso excita nossos pensamentos. Dizem que beijo roubado é mais gostoso. Não se rouba beijo. Eles são entregues direta ou indiretamente. É uma boca na frente de outra, ou ao lado, apenas esperando “ser roubado” aquilo que se quer dar...Sentimos que apenas desejar nos faz viajar, passear pelos planetas de nossa mente. Pegando carona nos cometas de nossos pensamentos... Bronzeando-se ao calor do anel de fogo de nosso coração quente pela paixão, ou refrescando nossas noites no meio círculo da lua crescente, encostados em seu dorso, com os pés ao vento, observando do alto de nossa imaginação como é a vida em um mundo de regras...
TODA PATRICINHA Aninha, Carlinha, Melissinha, ou digamos que toda mulher, que são a expressão de uma rosa charmosa, exalando um perfume que domina o jardim do mundo, a mulher que nada mais quer que colo, chamego, ser ouvida e falada. Ter a esperança de ser compreendida, sem muitas perguntas, apenas compreendida. Que ama apenas por amar, sem muita explicação. Que chora de felicidade. Ri na tristeza. Compreende o que não se explica. Que aceita. Estas mulheres que apenas procuram seu príncipe encantado descobrem um dia que este seu coração quente de amor, apenas “ADORA” UM VAGABUNDO, mas que vagabundo? Estes homens insanos, inertes em suas emoções, calculistas em seus atos, mentirosos de sua vergonha. A vergonha de não saber usar da sinceridade. Não a de dizer que te amo, mas de mostrar que sabe amar. De sentir a necessidade de se entregar e esconder este sentimento. De não ser a terra desta rosa, podendo ser apenas o galho de arvore que a apoiará, mesmo sem tê-la enraizada, apenas dando o apoio para que ela descanse, sonhe, imagine como seria difícil não amar, chorar, sonhar, rir, brigar e desculpar...Um ser sem medidas e parâmetros, que só enxerga seu umbigo como centro do universo, que esquece que o que é visto são as estrelas, que brilham nas noites de lua cheia, dando a nós, homens, uma bela visão que não conseguimos enxergar.
Ter a luz que somente o maior astro de todo este universo poderia emanar. Mas que astro? Este vagabundo? Não apenas uma mulher, ou apenas você...
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